Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
A arte de desamar

"Há dois mil anos, Ovídio foi corrido de Roma e enviado para o degredo, nas margens do mar Negro.  Desconhecem-se as razões dessa expulsão definitiva; o poeta e filósofo (nessa época não se praticava esta insensata separação de áreas) apenas deixou uma vaga alusão a um "erro grave" que teria enervado o Imperador, erro esse que considera seu dever "calar", acrescentando, todavia, que "só a sua ingenuidade lhe concedeu o exílio". Pode supor-se que os seus revolucionários escritos sobre amor e sexo (que também não moravam nos pudicos apartamentos separados dos nossos dias) tenham estado na origem da condenação - mas não deixa de ser estranho que o castigo viesse dez anos depois da publicação de A Arte de Amar, que causara escândalo.

 

Terá a amizade da terceira (e última) mulher de Ovídio pela Imperatriz Lívia tido influência neste cruel destino? Terá sido vítima de uma intriga de corte? Jamais o saberemos, porque o celebrado poeta - tão famoso em vida que os seus versos eram gravados nos muros da cidade - nunca aproveitou a popularidade para denegrir o Imperador que o matou em vida, proibindo-lhe até a companhia da mulher no exílio. Pelo contrário: sempre igual a si mesmo, o criador das Metamorfoses foi enviando para Roma uma série de elegias tristes, tentando amaciar o coração de Augusto e fazer-se perdoar. Mas nem os seus restos mortais regressariam a Itália.

 

Esta lealdade resistente à pior das desilusões constitui, por si só, um doutoramento naquilo a que o padre António Vieira viria a chamar "amor fino" - o amor a fundo perdido. Não há outro; ao amor que espera retorno podemos chamar investimento, vaidade, medo ou comodismo. Podemos até decidir ser felizes através dele, se estivermos determinados a viver em felicidade, coisa que dá muito trabalho e exige prodígios de imaginação ou alheamento. Mas o amor digno desse nome é, como escreveu Ovídio, uma arte, com o que isso significa de coragem e entrega total.

 

Ter uma arte é viver em função de alguma coisa que excede o acontecer da vida. A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão. Exige o dom da metamorfose e um alto grau de domínio perante a dor. O artista, como o amante, tem de ser capaz de sair da sua própria pele para se colocar dentro da pele do outro. Esvaziando-se na entrega, ganha também imunidade à dor - há sempre um lado seu que contempla, de fora, a obra que dentro de si se está gerando. O artista sente-se então um surpreendido Deus. Mas o sopro da divindade, ou dessa iluminação súbita que a ela se assemelha, surge no ser humano por intermitências, frágil chama sobre corpos tocados pela vulnerabilidade do conhecimento antecipado da morte. Pode então suceder que o amante se encontre sufocado na rede de um amor desprezado, sem conseguir extrair desse amor mais do que raiva e sofrimento.

 

Com os seus três casamentos e dois divórcios - só com a terceira mulher encontrou a plenitude do amor, para afinal ser afastado à força dela e proibido de morrer nos seus braços - Ovídio foi um mestre da ressurreição sentimental. Por isso, como conclusão da sua Arte de Amar, escreveu um conjunto de sábios e simples Remédios para o Amor, democrática e igualitariamente destinados "aos dois campos", ou seja, a homens e mulheres. "Aprendam a curar-se através daquele que vos ensinou a amar. Uma mesma mão vos trará a ferida e o remédio. A terra alimenta as ervas boas ao mesmo tempo que as daninhas, e a urtiga cresce muitas vezes ao lado da rosa". Para que este remédio faça efeito, explica Ovídio, é necessário arrancar da terra a árvore do amor quando é apenas um arbusto; consciente, todavia, de que os ramos do amor crescem até durante o sono, oferece ao amante rejeitado uma série de conselhos práticos como tesouras de poda, a saber: fugir da ociosidade, evitar os lugares frequentados pelo ser amado, evitar o convívio com pares de namorados, sair com os amigos e, acima de tudo, seduzir um sucessor, ainda que provisório, do amante ingrato. Sugere ainda que as horas mais difíceis sejam gastas a fazer listas de defeitos desse inesquecível verdugo, nem que, para isso, tenha o amador que perverter "no pior sentido" as qualidades do dito.

 

A profusão de regras exigidas pela arte de desamar dá-nos a medida da extrema probabilidade do seu insucesso - o amor nasce num alçapão do tempo, desfaz-se quando aterra com brusquidão sobre o tempo, mas só morre quando o tempo acaba de o desmembrar e devorar, pedaço a pedaço. Estes conselhos escritos por Ovídio com uma ironia forrada de lágrimas têm o sabor de uma história inventada por um amigo para nos distrair da dor, enquanto o tempo não passa. São a versão erudita - e, por isso, infinitamente mais animadora e imaginativa - dos truques que as revistas femininas usam, até hoje, para dizer às mulheres que, se elas estão a sofrer, o azar é deles. Mesmo que a realidade não o comprove, entretanto o tempo passa. Mas a força de consolação das palavras de Ovídio, dois mil anos depois, revela-nos a vitória da arte de amar. "

 

Escrito por Inês Pedrosa



publicado por Pira-te daqui! às 13:21
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