Domingo, 3 de Fevereiro de 2008
Pormenores Essenciais

Decidi começar o meu Blog, com um texto que escrevi no final do ano de 2005. Permitam-me que o faça.

 

 

Percorro as ruas da cidade em que vivo. Não ando perdido, mas sei que procuro algo. Ultimamente, a minha vida tem estado dependente dessa procura incessante. Enquanto ando observo as atitudes, os impulsos, as escolhas, reparo nos olhares, nos sorrisos, nos gestos. E olho para mim. Constato que, apesar de não querer, ninguém repara em mim.

 

São raras as pessoas que tentam perceber o porquê das coisas. Foi-lhes dito que era assim e a grande maioria resignou-se perante esse facto. A maioria deixa-se estar dentro delas próprias. Simplesmente não querem sair do casulo que construíram, daquele universo alienado. Fecham a porta que os define e que mostra o seu mundo aos profanos. Fecham o seu arco de esperança, agarram a bola de cristal que apenas existe no mundo dos sonhos e deixam-se levar pela ilusão por aquele sonho transformado em quase nada.


Continuo a andar. Está um dia normal. Pessoas atarefadas, cheias de pressa, sempre com a cabeça e o olhar colados ao chão, respiração ofegante, a pensarem em tudo menos nelas, num dia como tantos outros. Sinal vermelho. Os carros param. As pessoas atravessam a rua. E ninguém, mas ninguém repara em ninguém. Parecem máquinas. A vida é mesmo isto. Aliás, esta é uma parte da nossa vida. A parte visível dos outros, a que todos os mundanos têm acesso. A parte que realmente menos interessa. Vemos aquilo que realmente todos vêem. Mas no fundo não vemos nada.


Uma pessoa é muito mais que uma atitude, que um gesto, que um olhar, que um sorriso. Uma pessoa é uma atitude, com um gesto, com um olhar e com um sorriso. Mas para além de ser o conjunto de todos estes factores, é também um ser invisível dentro desse ser visível. Aí reina, realmente, o cerne da questão. O tentar perceber esse ser invisível. Perceber a sua forma de pensar, de actuar, os seus princípios, os seus objectivos, a sua educação, a sua evolução. Isso sim, é correcto e muito mais difícil do que recriminar ou criticar. Tudo muda com palavras como espontaneidade, sinceridade, honestidade, Amizade, Amor.


Muitas vezes nem sequer damos oportunidade de nos mostrarem realmente aquilo que são. Somos tão egoístas que, sem querer, perdemos naquele momento uma oportunidade única de conhecermos alguém interessante. Às vezes é preciso respirar fundo e deixar a razão de lado. É preciso dar sem querer receber, ouvir o nosso coração a bater desordenadamente durante uns meros segundos... E deixar-nos levar pelo momento. Podemos mesmo pensar depois que foi tempo perdido, mas na realidade nunca perdemos tempo, investimos realmente na nossa formação como pessoas, como seres humanos.


Muitas vezes também pensamos que a pessoa que está diante de nós e que pensávamos conhecer profundamente está diferente. Pensamos que a sua evolução foi negativa e que realmente não se trata da mesma pessoa, ou, pelo menos, da que supúnhamos conhecer. Tiramos inconscientemente certas conclusões. Realmente as pessoas mudam. Mas mudam de forma superficial. Palavras como “essência” ou “personalidade” nunca mudam. O que realmente é importante continua a sê-lo.


Deixei-me levar pelo meu sentimento. Neste momento sinto que corre mais depressa do que realmente queria. Já não sei onde estou. Sinto-me perdido. Parece que o meu corpo se eleva acima de mim próprio. Deixo-me voar, por uns simples segundos, nesse plano que se estende à beira do meu abismo, tentando controlar o fogo que me percorre o sangue… Tantas foram as ocasiões em que sentia que aquele não era o meu caminho. Inúmeras. Via-me numa floresta escura, húmida. Ouvia apenas o barulho do vento nas árvores, dos animais que não via, mas que sentia bem perto, do barulho de cada passo que dava, parecendo que alguém me perseguia. Sentia-me acompanhado, mas ao mesmo tempo apenas sentia que precisava de silêncio, paz, sossego, para pôr as ideias no sítio. Naquele momento não sabia para que lado ir. Sentimento esse, apenas momentâneo.


Sinto que estou a entrar em contradição. Mas não. Na realidade preciso destes dois mundos. Imaginários. Repentinos. Um que me dá a sensação de liberdade necessária para olhar o mundo de uma perspectiva diferente, o outro que me traz de volta à terra e que me mostra que por vezes é preciso sentir sozinho. Um a um, inexoravelmente, os meus pensamentos começam a fazer sentido.


Todas as histórias têm um corpo e um espírito, uma forma e um conteúdo. As palavras são o corpo onde o espírito vive, quer sejam ditas ou escritas. A forma do corpo é a forma do espírito, e desta maneira a forma e o conteúdo fundem-se, confundem-se e transfiguram-se. O corpo veste-se e reveste-se ainda, ora revelando, ora ocultando o espírito. Assim, não só o corpo se transforma, em si mesmo, mas também na sua aparente aparência.


Na realidade continuo a andar pela cidade que amo, no meio de gente que desconheço. Mas ando de cabeça levantada, sem vergonha, olhando de frente tudo e todos. Com orgulho e respeito próprio, sentindo-me bem comigo mesmo. No fundo nem sempre é assim... Por vezes preciso daqueles dois mundos repentinos para dar valor àquilo que realmente tem importância. Se não fosse assim a monotonia instalar-se-ia no nosso quotidiano e isso tornaria a nossa vida menos interessante. Todas as histórias têm de ter um fim. Nem que seja, sobretudo, para que outras comecem. Quantas histórias deixamos por acabar, histórias que precisavam de terminar para que outras pudessem começar? E mais importante do que estas, são as que começaram de maneiras única e singular e que provavelmente nunca irão terminar. É por estas que eu escrevo. É por estas que respiro. É realmente por estas que vivo…


Deixa-te estar só, ou acompanhado. Nunca lhe dês um fim! Deixa-te escrever a primeira palavra, que o resto eu digo-te ao ouvido como um segredo...

 

2 de Novembro de 2005

 

 


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publicado por Pira-te daqui! às 18:57
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